O glaucoma é responsável por cerca de 15% dos casos de cegueira irreversível no mundo. No Brasil, a Sociedade Brasileira de Glaucoma (SBG) estima que mais de 1 milhão de pessoas tenham a doença sem saber — porque ela avança sem dor e sem aviso.
O que é o glaucoma
O glaucoma é um conjunto de doenças que lesionam progressivamente o nervo óptico — a estrutura que transmite as imagens captadas pela retina ao cérebro. Na maioria dos casos, essa lesão está associada ao aumento da pressão intraocular (PIO), que comprime e danifica as fibras nervosas. Uma vez perdidas, essas fibras não se regeneram: a perda visual causada pelo glaucoma é irreversível.
O nervo óptico contém cerca de 1,2 milhão de fibras. A doença costuma destruí-las lentamente, começando pelas que respondem pela visão periférica. Por isso o paciente raramente percebe a perda — o cérebro compensa, e só quando a doença já está avançada é que o campo visual central começa a ser afetado.
Por que ele é silencioso
O tipo mais comum — o glaucoma de ângulo aberto, que representa cerca de 70% dos casos — não causa dor, vermelhidão, nem qualquer sintoma perceptível nas fases iniciais. A visão central permanece nítida por muito tempo, enquanto as fibras periféricas são destruídas silenciosamente. Quando o paciente finalmente nota algo errado, pode ter perdido mais da metade do campo visual.
Existe também o glaucoma de ângulo fechado, menos comum e mais dramático: provoca dor ocular intensa, visão turva súbita, halos coloridos ao redor de luzes e até náuseas. Esse tipo requer atenção urgente.
Fatores de risco
Algumas pessoas têm maior probabilidade de desenvolver glaucoma. Os principais fatores de risco, segundo a AAO e a SBG, são:
- Idade acima de 40 anos;
- Histórico familiar de glaucoma (risco até 9 vezes maior em parentes de primeiro grau);
- Pressão intraocular elevada;
- Córnea com espessura central reduzida;
- Miopia alta;
- Diabetes e hipertensão arterial;
- Uso prolongado de corticosteroides (colírios, comprimidos ou sprays nasais).
Ter pressão ocular elevada não significa necessariamente ter glaucoma — e ter pressão normal não exclui a doença. O diagnóstico exige avaliação completa do nervo óptico.
Como é feito o diagnóstico
A avaliação do glaucoma inclui um conjunto de exames que nenhum teste isolado substitui:
- Tonometria — medida da pressão intraocular;
- Biomicroscopia do nervo óptico — avaliação estrutural da cabeça do nervo com lâmpada de fenda;
- Campimetria computadorizada — mapeamento do campo visual para detectar perdas periféricas;
- OCT do nervo óptico — tomografia de coerência óptica que quantifica a camada de fibras nervosas, identificando perdas precoces antes mesmo dos sintomas;
- Paquimetria — medida da espessura corneana, que influencia a interpretação da tonometria.
Tratamento
Não existe cura para o glaucoma, mas a progressão pode ser controlada. O objetivo do tratamento é reduzir a pressão intraocular a um nível seguro para cada paciente — o chamado "pressão-alvo". As opções incluem:
- Colírios hipotensores oculares — são o tratamento inicial mais comum. Precisam ser usados rigorosamente, todos os dias, mesmo sem sintomas. A adesão ao tratamento é um dos maiores desafios;
- Laser (trabeculoplastia seletiva — SLT) — melhora o escoamento do humor aquoso pelo trabéculo, reduzindo a pressão. Pode ser usado como primeira linha ou complemento aos colírios;
- Cirurgia (trabeculectomia ou dispositivos de drenagem) — indicada quando os colírios e o laser não são suficientes para controlar a progressão.
A SBG e a AAO recomendam avaliação oftalmológica completa a partir dos 40 anos, mesmo sem sintomas. Em pessoas com fatores de risco, o rastreio deve começar antes. O glaucoma detectado cedo pode ser controlado de forma eficaz — o que o diagnóstico tardio não permite.